01 janeiro 2014

De orelha

Na orelha de Deleuze
eu li
Poema nômade
Miração
eu vi
imagens de cera derretiam
da orelha de Guatarrí

05 agosto 2013

Canto


Água que escorre das nuvens
Por sobre os morros 
Forrados de copas

Água que escorre em leitos sinuosos
Derramando-se ao centro

Na Grande Lagoa

Que suga sedenta o que levam os rios
Que assenta, acalma, sedimenta
E escorre finalmente suave

Ao mar

Que engloba, abrange, circunda

Que ilha

E traz nuvens de cinza pesar
Que passam do sul
Ao norte
Da ilha
Ventando

E as águas que escorrem
Por sobre seus morros
E alcançam lagoas

Procuram

Preenchem

O mar

10 dezembro 2012

Recife Mangue Mar

Queria fazer um poema tranquilo
um poema de amor
um poema rimado
maneiro
indolor

mas o cheiro que o canal exala
no exato momento em que passo
me lembra do esgoto
que escorre há dois meses
em frente ao conjunto
onde brincam contentes
crianças sem rumo
de escola
 e na hora em que passo
reparo no banho
de esgoto que toma o ciclista
das rodas cromadas
de um carro bacana
de um merda apressado

e ao ver o seu carro
me lembro do sangue
escorrendo no asfalto
do motociclista
que atropelado
se torna uma nota
tão desrespeitosa
manchada na capa
de um jornal do dia

por baixo da foto
de um shopping plantado
na lama do mangue
mal inaugurado
e já invadido
por consumidores
que pouco se importam
com o caldo podre
que escorre
do rio
ao mar

e com os pescadores
que colhem mariscos
tão contaminados
que serão servidos
aos consumidores
tomando caldinho
na beira do mar

Queria fazer um poema tranquilo
um poema bonito
um poema de boa
mas remo na proa
da escatologia
e quem sabe um dia
num Novo Recife
desodorizado
verticalizado
sem alma e sem cor
eu possa fingir
que o Recife acabou
e me esconda
por entre
dez mil Cardinots
vendendo café
e tripudiando
e enriquecendo
de morte e de dor

Ah, poetas do Recife!
a escatologia não é estilo literário!
é atalho
cheira a concreto
ou é covardia?
caverna onde a gente
se esconde
sem ter por onde?

E aqui termino
esse poema
sem vaselina
pois em Abreu e Lima
teve rebelião
na detenção
e os pirraia
mataram um sequela
esquartejaram
e jogaram os pedaços pela janela
queria este verso
ser surrealismo
mas sento confuso
na beira do abismo
e com ceticismo
planejo um poema
suave
bonito
falando de paz



04 janeiro 2012

desdém



no reino dos sábios
desdenha-se a ira
se sábios não reinam
se sábios são luz
desdenho-lhes reinos
e vivo sem cruz

desdenho minha luz
pura ignorância
desejo abundância
resenho a mentira
desdenho a verdade
desenho meu reino
na realidade

e se é mentira
o que me seduz
despejo minha ira
no reino dos sábios
não culpo ninguém
carrego meus blues
desdenho o desdém

18 outubro 2011

Travalínguas

O peito do pai do pobre é preto

O viagra agravou a greve do vigário

O rico roeu a renda do pé-rapado

Três trouxas trincados trouxeram trabalho ao traficante

22 setembro 2011

cidadania


A cidade era feia.
O menino gostava da cidade.

A cidade enfeiou o menino.
Botou-lhe roupa maltrapilha, cicatrizes e bicho de pé.
Tirou-lhe pai, mãe e dentes.
Em retribuição, o menino virou luz.
Viram-no subindo aos céus com asas encardidas.

A cidade, então, gostou de enfeiar meninos.

E todos viveram felizes para sempre.


07 julho 2011

Quem diria
a Grande Beleza se mostra
quando não há mais poesia

09 junho 2011

a seco



Tanto já falaram do sertão que cansei. Fui ao sertão. Ceguei-me, suei, amoleci o corpo. Lambuzei-me de umbu e carne de bode. Muito vi. Pouco falei. Pus-me dentro de mim, sertão de Riobaldo. Agora pois, escrevo. O sertão não me pertence. De sertão, às vezes padeço. E esqueço. Vastidão, carrasco e veredas. Um rio que morre antes do mar. Barreiro. Tanto falaram do sertão que nem sei. Voltei do sertão. Cheguei. Longe dos espinhos, esqueci do que deixei. Galhada seca, calei. Fulora? Quando chover, saberei.

23 maio 2011

Cadê Geraldo


Cadê Geraldo?

de Pulião?

Saiu bem cedo

Pelo portão.


Cadê Geraldo?

O folião?

Tava na praça

Chapéu na mão.


Eu vi Geraldo

De bicicleta

Levando um doce

Pra sua neta.


Eu vi Geraldo

Com o Festeiro

Batendo tambor

No Alto do Cruzeiro.


Eu vi Geraldo

Como menino

Guardando o Império

Na Festa do Divino.


Cadê Geraldo?

Que não vi mais?

Tá lá na frente?

Vortô pra trás?


Eu vi Geraldo

Agora mêis

Foi se encontrar

c'os Santos Reis.


Se vi Geraldo?

E seu chapéu?

Ele sorria

Subindo ao céu.



14 maio 2011

Tempo

Ontem é dia
o tempo dizia
sem olhar pra trás

Hoje será tarde demais

03 maio 2011

Pai

A primeira, lá

A segunda, aqui

A terceira virá


A primeira é cor

A segunda é som

A terceira:

Quem será?

Coleção outono-inverno

A roupa sua no varal

A roupa suja no cesto

O teto da cozinha: pinga

A gata se esconde no armário

O fundo do quintal: lama

Parede do banheiro: mina


A cidade-estuário se afoga

Congestionamentosmentosmentos

Vidros fechados, embaçados

Viroses

Bicicletas, capas de chuva

Leptospiroses


Eu, cachorro molhado

Coleção outono-inverno


@


Hey!
Rafael Raimundo
Hackeou
Hakim Bey

21 junho 2009

minimalismo reprimido

Inventei um poema minimalista:

***
"astronáutilus!"
***

a vizinha não gostou.

enfiei meu astronáutilo
em lugar diferente
de onde ela mandou

12 junho 2009

Devir



A Suely Carvalho

8:00- Domingo acordou com gosto de insônia. A barriga pesava, a garotinha chutava com força as costelas da Mãe; o útero contraía, quando em vez: há semanas. A Tia, chegada das distâncias, precisava partir naquela tarde. E nada. Nada, havia vinte dias. A mãe chororava todas as mágoas do mundo, o Pai segurava os pesos de si. Chororava-se por dentro, impacientava-se. O berço que Vovô fez para a Irmã, tempos idos, jazia só sob o mosquiteiro. O telefone incomodava os prenúncios. Amigos e parentes ficavam sabendo desnovidades. Pois sim.

9:00- O telefone de novo. Da parte da Parteira. Teriam ouvido os chamados? Os chamavam à sede. Foi mãe (foi Filha), foi Pai, foi Tia.

11:30- As Aprendizes de Doulas, reunidas, aprendiam a apreensão do casal. A Parteira examinou a Mãe. Desaperreou Mãe e Pai: paciência, força e equilíbrio. A lua se enchia naquela tarde. Pensou ser para logo, não disse, de modo a evitar novas insônias. Depois, um colo para o casal, palavras de força. Ela chorou sem chororar, ele chorou meio engolido, em bobagens masculinas: homem-chora-mas-tem-que-se-fazer-de-poste. A Tia, emocionada, sentiu cumprida a missão, em sua incompletude. Permitiu-se ir. Recado de Parteira: um passeio a dois, para relaxar seguido de duas horas de sono para preparar o porvir. O porvir? Evitaram perguntar.

12:45- macarronada com bife à parmegiana em família.

14:55- o Pai ajudava a Tia a descer as malas do bagageiro, na plataforma do aeroporto. Mais que uma despedida, um até breve.

16:00- a Mãe e o Pai caminhavam no domingo de inverno de Boa Viagem. Aprenderam o que é skinboard, admiraram as novas placas de advertência contra tubarões, repletas de informações. Resumiram o texto: não entrem no mar.

16:10- o Pai e a Mãe se sentaram na areia e observaram um casal tatuado entrar no mar vazio. A água estava agitada, eles se desequilibraram. Riram-se um do outro e se beijaram.

16:15- um vendedor de biscoitos perguntou sobre o início das férias das escolas particulares. Ambos olharam interrogativos.

16:30- um conhecido passou com amigos e prometeu um charuto.

18:00- passaram na locadora e alugaram três filmes.

18:30- ele ligou para o Compadre dizendo que tinha decidido não ir ao trabalho no dia seguinte. Ela ligou para a Faxineira avisando que não precisava vir no dia seguinte. Tiraram o telefone do gancho. Olharam, do quintal, a lua cheia brilhando no céu.

18:55- o Pai dispôs cuidadosamente sobre uma mesa: uma imagenzinha de Nossa Senhora do Bom Parto; um cartão colorido com a imagem de Iemanjá; uma foto diminuta em preto-e-branco de uma festa de Nossa Senhora Aparecida no Quilombo, o Festeiro e o Capelão circundando a pequena casa de pau-a-pique levando uma vela e a Santa. O Pai acendeu uma vela, que seria reposta três ou quatro vezes.

19:00- o primeiro filme começava com um parto. A mulher Maori dava a luz a gêmeos, um menino e uma menina. A mãe e o menino não sobreviviam, a menina chegava sem festejos. Ela se tornaria, ao final do filme, a descendente do ancestral mítico, trazendo novo rumo aos Maori. Antes do programado desenrolar, travou-se o disco- o filme não durou 15 minutos.
O casal não se abalou, em teste de serenidade.

19:30- o outro filme também tinha um parto em seus primeiros minutos. O velho contador de histórias misturava ficção e realidade ao narrar suas memórias ao filho. Quando nascera, a mãe fizera uma força e ele, bebê, escorregara pelo meio de suas pernas. Deslizara então oniricamente pelos corredores do hospital afora, sob os olhares da equipe médica.
O casal também não terminou este filme, apesar do disco funcionar perfeitamente. As contrações começaram e ele foi fazer o jantar.

20:00- fortes contrações. Ela se doía, ele marcava o tempo de intervalo. O corpo expulsava matéria por todos os lados. A louça do banheiro parecia amigável.

21:00- ela não conseguiu jantar. Não houve tempo também para duas horas de sono.

22:10- ela se mudou para o banheiro, ele tinha uma tabela de contrações desritmadas. Telefonou para a Parteira e pôs de novo o telefone no gancho. 'Temos tempo', a Parteira sentenciou: que ligasse em uma hora e vinte, as três Doulas seriam avisadas.

22:30- ele pegou o material numa gaveta e dispôs sobre uma mesa: gaze, clamp ubilical, xilocaína, luvas, panos, fraldas, lona plásticas. Pensou em Ilya Prigogyne: processos não-reversíveis. A última coisa em que ela pensaria seria Física.

23:30- ela caminhava pela sala em dores, descansava entre uma e outra contração: aventava a possibilidade de não conseguir. Bobagem, dizia ele. Ela perguntou onde estavam a Parteira e as Doulas. Ele disse que elas chegariam em breve. Relembrou as palavras da Parteira: é a Mãe quem faz o parto, não a Parteira. Falar é fácil, ele pensou e guardou para si.

23:40- chegaram duas Doulas. Chegou a Parteira, mais uma das Aprendizes, com seu bebê. Depois outra Doula ainda chegaria. Era hora de todos trabalharem.

Tempo fora do tempo- todos trabalhando, o Pai é o único homem presente (só pensou nisso depois): contrações-massagem-água-açúcar-contrações-massagem-café-mel-corta legumes-contrações-massagem-corre pro banheiro-contrações-massagem-grita-refoga pés e pescoço da galinha-volta para a sala-contrações-massagem- põe a sopa no fogo-pega a bola de plástico-senta-contrações-massagem-agacha-levanta-grita-contrações-água-açúcar-grita-massagem-mel-toma café-agacha-grita-senta-levanta-agacha-grita-massagem-runas-cheiro de sopa-flashes-contrações-grita-senta-levanta-agacha-grita-corre pro banheiro-pega o isolante no armário-contrações-grita-pega o banquinho-contrações-massagem-deita-vontade de fazer força-pega o banquinho-abaixa o fogo da sopa-contrações-grita-massagem-força-contrações-flashes-grita-força-contrações-grita-flashes-força-vai-contrações-vai-força-grita-contrações-força-força-força-grita-contrações-força-força-força-vai sair-estou vendo a orelhinha dela-força-grita-nasceu!nasceu!nasceu!-choro de bebê-olha a hora

3:22- a Mãe segurava desajeitadamente a pequena criança melada e arroxeada no colo, o pai a abraçava, embevecido. O cordão umbilical seria cortado minutos depois, pelo pai, após parar de pulsar. A placenta sairia 20 minutos depois. A parteira e as Doulas respiravam emocionadas o dever cumprido.

3:25- a Mãe sentiu cheiro de queimado, perguntou se a sopa ainda estava no fogo. O Pai disse que não, olhando discretamente para a pequena mesa onde acabava de se apagar a vela sob as imagens de Iemanjá-Nossa Senhora.

7:00 A sopa grossa de galinha com legumes foi consumida pela Mãe, o Pai e a Parteira, após esta ter tomado, com amor, todos os cuidados necessários com a Mãe e a Filha.

7:10 Segunda acordou com gosto de sono. O telefone fora do gancho, o berço que Vovô fez para a Irmã, tempos idos, ainda só sob o mosquiteiro. Na cama do casal, Pai, Mãe e Filha jaziam tranqüilos, em silencioso descanso.

16 maio 2009

imagens de viajantes



Violeta Silveira Ruiz, 7 anos. "A conaneira", óleo sobre tela, Olinda, abril de 2009.

03 maio 2009

(sem título)

vento sopra
mês de maio
mormaço e chuva
gosto de maresia
moradores apressam-se em consertar telhados
verificar goteiras e infiltrações
sinos batem
formigas se alvoroçam
maracujá fulora mangangás
tempos de recolhimento
sob o guarda chuva
espero bem vinda
a vida que vem

30 setembro 2008

sem título

E se eu cansar das narrativas
Abandonar a mania de contar histórias
Deixar de vez
Para trás
Essa idéia antiquada
De ligar fatos por um suposto
Ah- suposto!
Encadeamento lógico?

Que é o tempo senão camadas sobrepostas de espaço?

E se eu largar a poesia
Cansar dos momentos fugidios
Dos flagrantes
De sentimentos profundos
Dos parênteses
E se me enfadarem a seqüência de versos
As ricas rimas desconexas
As aliterações, metáforas e metonímias
Se me encher do ritmo cadenciado?

E se
Mortas
Prosa e poesia
Eu deixar de ver, ouvir, sentir?
Se tudo se transformar em um grande vazio
Deserto
A blank plain gap
E se me faltarem
Os cadernos e os teclados
As palavras, as letras e as linhas?

E se eu quiser terminar?

E se eu desistir do movimento?
Correr
Fugir
Mudar de coordenada
E se eu deixar de ter fé na localização por satélites?
Se eu não mais quiser abandonar
O que não me deixa?

Que é o espaço senão camadas sobrepostas de tempo?

E se eu quiser contar histórias sobre desacontecimentos?
Fazer anti-poesias sobre o que não sinto?
E se eu quiser me desmentir do que sou?

E se eu quiser começar?

24 agosto 2008

ecologia marinha

A praia comprida ventava salgado. Estreita, entre o canal e o mar. O canal, em si, desdém. O cheiro sim, doía-se de si mesmo. Por incrível, havia as crianças que nadavam micoses e hepatites. A praia, por sua vez, surfista aposentada. De quando em quando se vinha um corajoso lá do outro lado do canal, prancha em punho, e a praia relembrava antiguidades: surfistas, banhistas, pescadores. Depois mareava, coçando as cócegas que lhe faziam os sacos plásticos e demais rejeitos. O encontro do canal como o mar, ao fim da praia, era um anti-espetáculo. O caldo escuro dissolvia-se na água salgada, inconsolável. Do outro lado do canal, as casinhas se empilhavam até a avenida paralela ao mar e ao canal, onde toda tarde se via um engarrafamento passageiro e cultos nas duas ou três igrejas evangélicas de diferentes franchisings. Entre as casinhas amontoadas e a praia havia um canal, pois. Um não-rio, repleto de não-manguezais. Sobre o canal, uma ponte. Na praia, quase poucos. Um pombo, um urubu, três ou quatro almas. Ficavam por ali, até que aparecesse um cabra, dinheiro na mão. A praia olhava, ouvia. Antes era “da massa”. Massa. Agora tinha “da massa” e tinha “da pedra”. Era rochedo. O mar, denso, refrescava de leve a areia, ignorante. Ao pôr do sol, um dia, apareceu, após muito, um surfista. Menino nascido ali, a praia reconhecia a pisada. Crescera, estudara ali perto, vinha matar aula e fumar maconha na praia. Adolescente, ficava horas a fitar o horizonte, decerto contando tons de azul. Adulto, às vezes voltava à praia, camisa com o logotipo de alguma loja do shopping que substituíra um outro manguezal ali perto. Era este mesmo, o homem que um dia apareceu, num momento saudoso de tempos atrás. Ele, que surfava ali antes de 1992, quando lá ao sul o porto que fizeram mudou as correntes marinhas, ou coisa que o valha. Aí começaram os ataques dos tubarões. O mar sentia as braçadas do homem na arrebentação. A praia olhava, ouvia. Sentia cheiro de sangue, sobressaindo ao cheiro do canal. E então, depois de anos, aquela estreita praia, sábia e doente, voltou às manchetes, no caderno “cotidiano”. O homem, aleijado de uma perna, nunca mais voltaria àquela praia. O canal, o mar e areia, aleijados de sua poesia, persistiam à sua própria perplexidade.