10 março 2008

assim

Chegaram-se como quem nada quisessem. No dia em que a conheceu, ela queimou uma panela e envenenou acidentalmente o gato. Dias depois, uma festa, na cidade dele, tornou-se uma história. História assim, como quem nada quer. Amor que não se pode ser. Mas a vida insistia. Esta deu um jeito de virar-se do avesso e pronto, lá estavam eles, amando-se na mesma cidade, quase vizinhos. Ela dizia não querer freqüentar a casa dele. Preguiça das ladeiras. Ele as descia, resoluto. Mas as ladeiras também se acostumaram com o decidido caminhar da moça. Ainda sim, ela hesitava em penetrar o universo pessoal dele. Medo de enredar-se, para nunca mais, em neuroses pessoais e familiares. Ela sempre dizia: um dia quero ser sua namorada. Ele calava paciências, até que as visitas dos parentes foram se sucedendo sem grandes planejamentos. Ela gostou da filha dele, ele gostou dos pais dela. Jogavam xadrez, vez em quando. Comiam juntos, dormiam juntos, um dia lá, outro cá. Às vezes cada um ia para sua casa, dissimulando-se. Passaram por eles um, dois, três momentos de tensão. Passaram-se. Lá pelas tantas ela admitiu publicamente, a dois, que o nome era aquele, na-mo-ro. Ela se mudou para mais perto ainda, sem a desculpa das ladeiras. Fizeram planos de viagens. Pensaram em como as coisas podiam ser, morando juntos, cada qual com seu quarto. Respeito aos limites do querer. Não vai dar certo, ela dizia, reclamando do mau-humor matinal dele. Continuaram, pois, provisoriamente, cada-qual-cada-qual. Outro dia ela, como quem nada quer, emprestou-lhe as chaves de casa. Disse para guardar com ele, como quem nada quisesse. Ele sorriu discretamente, de canto de boca, aguardando próximos capítulos.

13 fevereiro 2008

O bloco que não saiu


É meu caminho: diariamente serpenteio ladeiras abaixo, de casa até a Praça do Carmo. Rumo ao ponto de ônibus, rumo ao trabalho. A praça é um ponto de espera de táxis e guias turísticos, ponto de contato entre a bolha de realidade da Cidade Alta e uma Olinda mais selvagem, região metropolitana do Recife. Ali fica a Biblioteca pública de Olinda, onde, em uma pequena sala, funcionava um centro de informações turísticas improvisado. Vizinho à biblioteca havia um casarão abandonado do qual eu, passante insistente, nunca havia me dado conta. Certo dia, meados de segundo semestre, sei lá bem quando, reparei em sua existência: um grupo de pessoas tocava pandeiros e alfaias , havia uma movimentação dentro da casa. Na entrada, faixas e bandeiras explicando que aquela era uma ocupação do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade, o MTL. A ocupação chegou e ficou. Achei interessante o fato de que os ocupantes não foram retirados.

Os meses se passavam e já me acostumava a passar na casa ocupada pelos sem-teto. Imerso no processo final de redação da tese, sem ler jornais nem assistir TV, não sabia das negociações. Também nunca parei para conversar com meus novos vizinhos. Simpatizava, porém, com a invasão de realidade no paraíso do patrimônio histórico. Imaginava o bloco dos sem-teto no carnaval, os quartos da casa alugados para uns gringos e a renda revertida ao movimento: os sem-teto adaptados ao universo das ladeiras.

No início de janeiro, a cidade começava a se preparar para o carnaval: uma procissão religiosa lavou de água de cheiro a Igreja do Bonfim em homenagem a Oxalá. Os fins de semana ficavam mais agitados, havia algumas prévias de blocos. Nas adjacências da minha casa o cheiro de mijo aumentava. Duas audiências públicas marcavam a preocupação dos moradores com as condições da cidade para receber a invasão de foliões. Eu tentava ignorar o mundo ao redor, me concentrar na finalização da minha tarefa antes que fosse tarde demais.

***

Era dia de semana, no espaço límbico entre o ano novo e o carnaval. Fim de tarde, barraquinhas sendo montadas na praça do Carmo. Dali a uns dias um grande palco dificultaria meu trânsito entre o ponto de ônibus e o outro lado da avenida. Desci do ônibus ansioso para chegar em casa, pensamentos ao longe. Atravessei a rua e logo notei uma aglomeração de gente, próxima à esquina. “Vamos fechar a avenida!”, gritou um homem, cabelos compridos e semblante de sindicalista. As pessoas em volta pareceram não acatar a decisão. Franzi a testa, sem entender. Mais alguns passos e compreendi: em vez de alfaias e pandeiros, um bloco humano munido capacetes, cassetetes e escudos se colocava na porta do casarão. Um arrepio me percorreu a espinha. Fiquei parado por uns instantes, olhando para o acontecimento. Na esquina de cima, passei por duas mulheres, uma mais velha que dizia para a mais nova: “agora não adianta mais, já era”.

Eu sabia que um dia eles seriam retirados dali, caso não saíssem ao conseguir negociar alguma reivindicação. Mas o mais espantoso veio depois. No dia seguinte, no mesmo horário, casa começava uma rápida metamorfose. De salmão, passava a branca pelas mãos ágeis dos pintores convocados. Mais um dia e a casa estava toda pintada e, em mais alguns, de maneira absolutamente sincronizada com o início oficial do carnaval, podia-se ver um luminoso com um grande “i”. A antiga ocupação dos sem-teto agora era o novo Centro de Informação ao Turista de Olinda.

***

O Carnaval atropelou qualquer forma de reação. Chegou uma nova ocupação, a dos foliões. Eu mesmo, tese entregue à banca, tive de ceder a minha casa a grupo de ingleses, me mudando para o vizinho bairro do Amaro Branco. O contrato de aluguel incluiu essa cláusula. Ao contar a história ao Mike, amigo inglês chegante para o carnaval, ele comentou na hora: é o mesmo que está acontecendo contigo. Tive que concordar. A diferença é que após o carnaval, voltei com minhas tralhas ao alto da Misericórdia. Os sem-teto não ocupam mais a Cidade Alta. Ainda agora, ano iniciado na prática, continua a reluzir o luminoso oficial, azul e branco.

Quem chegou para o carnaval não notou nenhum sinal da bandeira vermelha preexistente. Aquele óbvio Centro de Informação Turística, no ponto de chegada dos turistas, parece ter estado sempre lá. Ao descer diariamente do "Rio Doce-Dois Irmãos", cansado do dia de trabalho, ansioso para chegar em casa, não deixo de olhar com um certo desprezo para o casarão, estranhando a mudança na vizinhança, a que impediu o bloco dos sem-teto. É assim, enfim, que se produz uma bolha de realidade. Não tenho do que reclamar, emboletado pelo cotidiano. Quarta tem forró ali no Xinxin da Baiana, do outro lado da rua. Mas a alguns metros dali, na favela da Ilha do Maruim, os meninos que surfam nas portas e tetos dos ônibus costumam nadar no canal do imundo Rio Beberibe.

22 janeiro 2008

mata a tese e mostra o pau

(imagem sampleada do fotolog do agnelo- ver links)

21 janeiro 2008

É carnaval


- Garçon, tem um confete na minha cerveja!

11 dezembro 2007

pausa: café com radiola

o caos produtivo


Um homem trancado num quarto escuro

Suando

Nervoso

Os olhos lacrimejando

A boca seca

A cabeça a doer

O corpo a reclamar

Dia todo na mesma posição

Urge acionar os grupos de Direitos Humanos

A Anistia Internacional

As Mídias Independentes

Começaremos a campanha:

Tese, Nunca Mais!


23 novembro 2007

coco de telha


um estrondo
choveu um coco sobre meu telhado
que idéia: construir uma casa sob o coqueiro
agora rezo que não chova água
pelo rombo da telha arrisca
cair
água de coco

09 novembro 2007

(sem título)

O menino encontrou um passarinho com a asa quebrada, no fundo do quintal. Levou para casa, cuidou dele. Não o meteu na gaiola, por gostar.

A irmã achava engraçada aquela cena, o pássaro pululando atrás do piá. Em passatempos, o bichinho foi ficando curado.

Um dia o ocorrível se deu: pousado nos dedos do menino, chacoalhou-se a alçou vôo ao infinito. O menino ficou admirar o bonito voar do amigo.

Depois foi chorar no fundo do quintal, onde a irmã não pudesse ver sua asa quebrada.

27 outubro 2007

I got a feeling

Que sentimento é esse que me invade rins, fígado e intestino, que me incomoda as entranhas, estranhas ondas eletromagnéticas?

What kind of fucking feeling is this, que me faz respirar com velocidade e andar a três centímetros do chão, que me faz caminhar pela praia às cinco da manhã fazendo vinte e oito planos por segundo?

Que não há remédio, droga ou aditivo?
Que não há poeta morto ou vivo?
Que transborda poesia e explicação?

I got a feeling deep inside, que me faz suspirar alto na biblioteca, deixar o café esfriar na pia, reesecrever minha biografia.

Estranho e belo sentimento, aliciosamente inescapável.

funcionário do mês

Todo dia ele chegava na lanchonete meia hora atrasado. Os outros já lá, chapa quente. Ele: camisa amassada, olhos vermelhos, de ressaca. Na gola, manchas de batom. Entrava, triunfante, procurando um café. Durante o dia, fechava os olhos entre um suco de laranja e um cheese-bacon, lembrando de flashes da noite anterior por entre os pontos brilhantes que insistiam em piscar sob as pálpebras cerradas. O patrão não gostava, os outros funcionários comentavam. Ele não queria saber. Às cinco e cinqüenta, dez minutos antes do fim do expediente, parava em frente à parede de entrada e imaginava sua foto, boné de lado e camisa torta, "funcionário do mês". E quando o último cliente pedia mais um milk-shake, imaginava-o pensando: "esse sabe viver".

25 setembro 2007

Dia desses

(A Bob Dylan)


Saí de casa com pressa

Desci a ladeira atrasado

Pensamentos perseguindo minha manhã

No muro do mercado Eufrásio

Passei ao lado do leão pintado

Comendo uma lata de goiabada Leão

O café feito petróleo

Engolido em um só trago

Dessa vez não me queimou o estômago

Mas também não me acordou

O ponto estava cheio

E o coletivo abarrotado

Não parou quando acenei

Olhei no pulso sem relógio

Respirei fumaça com a velha do meu lado

Reclamando do preço da passagem

Então mandei às favas

Meus carimbos e formulário

Meu café de escriturário

Minhas intrigas de horário comercial

Atravessei a Sigismundo

Sentei na beira do mar

E te materializei

Bebendo um mate no silêncio velado dos milagres

danger

20 setembro 2007

hai kai

se a barra pesa
um recomeço
com leveza

14 setembro 2007

treino d'angola

negativa
negativa
negativa

[até aqui, tudo bem]

negativa, rasteira, rabo de arraia
negativa, rasteira, rabo de arraia
negativa, rasteira, rabo de arraia

[o suor começa a pingar]

negativa, rasteira, rabo de arraia, negativa, vira o jogo
negativa, rasteira, rabo de arraia, negativa, vira o jogo
negativa, rasteira, rabo de arraia, negativa, vira o jogo

[respira que dá]

negativa, rasteira, rabo de arraia, negativa, vira o jogo, queda de rim, tesoura
negativa, rasteira, rabo de arraia, negativa, vira o jogo, queda de rim, tesoura
negativa, rasteira, rabo de arraia, negativa, vira o jogo, queda de rim, tesoura

[o braço começa a tremer]

queda de rim
queda de rim
queda de rim

[ai de mim]

queda de rim!
queda de rim!
queda de rim!

[escorrego na poça de suor]

queda de rim, ponte, tesoura

[está acabando?]

queda de rim, ponte, tesoura

[estou me acabando]

queda de rim, ponte, tesoura

[a visão está turva]

mais uma
mais uma
mais uma

mais uma.

vamos andar...

e ginga.

13 setembro 2007